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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

UM RAIO DE SOL ATRAVÉS DA CHUVA

No centenário da Imigração Japonesa em 2008 recebi a tarefa de produzir um espetáculo para a inauguração do jardim japonês no Parque Municipal.
A “louca” aqui teve a idéia de reproduzir uma cena do filme Sonhos (Yume) do cineasta japonês Akira Kurosawa (1910-1998). Yume é um filme antológico de 1990, baseado em sonhos verdadeiros que o cineasta teve em momentos diferentes de sua vida. O filme divide-se em 8 histórias distintas, unidas pelo mesmo tema. Recomendo para quem ainda não tenha assistido...
Uma Oficina-Montagem foi especialmente desenvolvida por mim para transpor para a cena o primeiro episódio do filme: “Um raio de sol através da chuva”, cuja sinopse é a seguinte.
Há uma antiga lenda japonesa que diz que quando o sol está brilhando através da chuva, as raposas (Kitsune) se casam. Um garoto desacata o desejo de uma mulher, possivelmente sua mãe, para permanecer em casa durante um dia com tal clima. Escondido atrás de uma árvore na floresta, ele é testemunha de um lento processo de matrimônio do Kitsune. Infelizmente, ele é descoberto por uma raposa e foge. Quando ele tenta voltar para casa, a mulher diz que a raposa tinha vindo até a casa e deixado uma espada curta. A mulher diz que isso significa que o garoto deve se suicidar porque as raposas estão bravas com o observador indesejado. Então, o garoto sai a caminho das montanhas, em direção ao lugar sob o arco-íris na procura da casa das raposas para desculpar-se.
Cena do filme Sonhos

Reuni para esse trabalho ex-Quixotes (Lud Moma, Lucas Bertolini e Patricia de Camargo), ex-Argonautas  (Ana Claudia Oliveira, Carlos Martins, Lelis Andrade e Lilian Muzel), novos Argonautas (Elen Oliveira e Maria Fernanda)e as Meninas (Janaina Giorni, Luciana Galvão e Natalia Negro). Antonio Victório cuidou da cenografia (pesquisa das máscaras das raposas e criação de uma chuva artificial). Participações de Dra Elizabete (mãe) e Gabriel (menino).
Foi um trabalho gratificante em vários aspectos: a reunião de um elenco que já fazia parte da minha história teatral em diferentes grupos, a pesquisa do teatro oriental, tão diverso do ocidental e da experiência de uma apresentação ao ar livre.           
Cena "Um raio de sol através da chuva"

Cena "Um raio de sol através da chuva"







sábado, 19 de fevereiro de 2011

JOGOS ECOLÓGICOS

Enfrentei um desafio enorme em 2007 em função da nossa decisão, professores da Escola de Artes, de fazermos um revezamento na condução dos grupos, dando oportunidade aos alunos de experimentar direções diferentes.
Assim o Argonautas Cia Cênica ficou sob a coordenação de Giovani Huggler, o Artikulados com Antonio Victório e o grupo Alegria (formado em 2006 por Huggler), ficou comigo. Ocorre que crianças nunca fizeram parte dos meus planos, o grau de responsabilidade na formação do adolescente é uma, com esse público é o dobro, exige didática e metodologia diferente.
Confesso que não foi uma experiência divertida pra mim e acredito ter errado muito pra acertar um pouco...
Investi na metodologia da americana Viola Spolin e seus Jogos Teatrais, uma “febre” na área de Arte e Educação no Brasil, a partir dos anos de 80. E a partir de jogos tradicionais do universo infantil, criamos um exercício cênico que tinha a proposta de conscientização para preservação do meio ambiente.
O elenco reunia 14 crianças de 7 a 12 anos e na estréia em outubro, novamente ocupando o espaço do antigo cinema (antes da reforma), distribuímos sementes de ipê para o público presente.
“As crianças podem e devem ser atores em peças para crianças. O observador médio infelizmente tem um padrão muito baixo do desempenho infantil. Imitação de estereótipos adultos, exibicionismo e esperteza são muitas vezes confundidos com talento. Não há necessidade de distorcer a criança por meio da imitação do adulto. E nem é necessário (para evitar este problema) limitar a sua expressão teatral ao jogo dramático bem ajeitado.” (Spolin)



quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A VER ESTRELAS

Para o ano de 2006, a montagem escolhida para o grupo Argonautas Cia Cênica foi a peça A Ver Estrelas, de João Falcão, um belíssimo texto que ousei adaptar para um estudo da commedia dell’arte, partindo da premissa que um bom texto oferece várias possibilidades de leitura.
O aprofundamento artístico fazia-me cada vez mais entender, que o teatro que eu buscava era de uma estética não realista e não psicológica e a busca por teorias relacionadas a isso se abriram na minha experiência teatral. A paixão pelo diretor russo Meyerhold (1874-1940) se deu no ano anterior, a partir da leitura sobre sua vida e obra e desde então, minhas opções na direção foram ampliadas, com foco principalmente no movimento físico do ator no espaço.
A Ver Estrelas foi uma experiência ímpar nesse sentido. Apesar de um elenco jovem (a maior parte vinda da montagem anterior), tínhamos muita sintonia, com destaque para Lelis Andrade que foi protagonista no papel de Pierrot e começava a dividir comigo, as mesmas angústias artísticas. Ele era incansável na busca do gesto e da palavra perfeita para a sua personagem e tenho orgulho de ter contribuído na sua certeza de que ser ator era o seu futuro.
Dizia Meyehold: “Não é perigosa a imitação para um jovem artista. Trata-se de um degrau quase obrigatório. Para os jovens é útil copiar os bons modelos: isto os dispõe a independência interior. A imitação de um artista de quem nos sentimos próximos permite a definição total...”
No tempo da preparação de Pierrot, Lelis tinha como modelo Charles Chaplin. 
Neste ano, Lelis Pierrot finaliza a primeira etapa na concretização de seu sonho, concluindo sua graduação em Artes Cênicas e já atua como professor de teatro. 
A Ver Estrelas cumpriu temporada na Estação Ferroviária de Mairinque, participou da 2° Mostra de Teatro de Tietê e foi vencedora na fase municipal do Mapa Cultural Paulista, edição 2007/2008.  

Nota: A fase municipal do Mapa Cultural Paulista foi realizado no antigo cinema (ainda não reformado). O teatro da cidade voltaria a ocupar o espaço que sempre foi seu por direito, uma herança deixada por Alfredo Ercolano Giuseppe Bertolini, pioneiro da cena teatral de Mairinque.
Obrigada velho Mestre...  

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

FEITIÇO DOS DEUSES

O ensino gratuito de teatro promovido pela Escola de Artes Municipal (EMART) foi um avanço para essa arte, já que as administrações culturais anteriores sempre privilegiaram música e dança.
Em 2005, Antonio Victório (Trupe da Vila), Giovani Huggler (Theatron) e eu do Abraçando Quixote, assumimos o direcionamento do teatro na cidade. Como nossa história estava ligada ao de liderança de coletivos teatrais, criamos três grupos dentro da Emart, com coordenações independentes, mas colaborativo nas montagens.
A questão do espaço ainda era um problema. O antigo cinema continuava desativado e na própria Emart não havia espaço para nossas atividades. Assim, optei em ocupar um patrimônio histórico: a estação ferroviária, primeira construção em concreto armado do Brasil, enquanto Antonio e Giovanni levaram suas turmas para o espaço da escola estadual que Giovanni havia conquistado (como já informei em outro artigo).
Nossas decisões quanto a condução dos grupos foram bem acertadas: a experimentação de linguagens (teatro de sombras, bonecos...) coube ao Cem Nomes Cia de Bonecos, dirigido por Antonio, o estudo de textos da dramaturgia brasileira era o foco do Artikulados, coordenado por Giovani e para o Argonautas Cia Cênica, o estudo na linha do tempo histórico do teatro ocidental.
Para a montagem de Feitiço dos Deuses, de Marilu Alvarez, que tem como tema os mitos gregos, o elenco reunia 18 pessoas e era a minha primeira experiência em direção para uma produção desse porte. Elenco numeroso, espaço não convencional para apresentação, trabalho com coros e inúmeras variáveis que resultou, com a união dos professores para um trabalho colaborativo, numa montagem muito bem sucedida.  
“A direção organiza a escritura cênica e por conseguinte determina em que direção a obra deve ser lida. É ela quem orquestra as inúmeras ações dos artistas na composição poética. Para que essa orquestração seja possível, é necessário que haja uma concepção que lhe sirva de estrela guia. Essa concepção não é necessariamente uma criação da direção, mas deverá ser assumida por ela. Se papel é justamente permitir que a idéia da obra germine e desenvolva-se em cada um dos artistas envolvidos, escolher caminhos poéticos que propiciem esse florescimento sem tolher nem atropelar os processos criativos desses artistas, ao contrário, propiciando sua instauração. O grande risco para o diretor é atropelar os processos, é querer realizar suas idéias sobre a montagem cedo demais, de maneira exterior e despótica, sem atenção e escuta para todos os elementos que compõe a obra – desde os artistas que com ele colaboram até o tema ou texto abordado.” (Roberto Mallet)
Destaquei o texto de Mallet para resumir o aprendizado que tive em Feitiço dos Deuses, que estreou em 23/10/2005 na Estação Ferroviária de Mairinque.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

PENETRAÇÃO NO POEMA DE SETE FACES

Uma confluência entre os planetas Júpiter e Saturno alterou os rumos da minha carreira no ano de 2005. Fui convidada a dar aulas de teatro na Escola de Artes em Mairinque.
Para quem não me conhece bem, devo acrescentar que sou muito “c de f” em algumas questões, então naquele momento, deixando a condição de direção de um grupo para assumir a responsabilidade de ser professora, exigiria que eu estudasse e aprendesse. Nada demais já que vou morrer com um livro nas mãos...
Além dos estudos de metodologias diversas me inscrevi numa Oficina de Direção Teatral no Senac Lapa e foi bem bacana, principalmente porque era a única mulher da turma, e como disse Stela Fischer, a orientadora da oficina na nossa “formatura”, o olhar feminino na direção é bem diferente do masculino.
Ao fim do curso organizamos uma Mostra, onde cada um levou para o palco uma cena sob sua direção e eu apresentei Penetração no Poema de Sete Faces com o Abraçando Quixote, tendo no elenco Anderson, Lud e Tom Ravazolli (convidado).
A alteração no título, que era uma nova versão do trabalho de 2002, deveu-se a um poema de Elisa Lucinda, dedicada a Carlos Drummond de Andrade, que divido com vocês...
Ele entrou em mim sem cerimônia
Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu
Na primeira fala eu já falava como se fosse meu
O poema só existe quando pode ser do outro
Quando cabe na vida do outro
Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada
Há apenas frases e desabafos pessoais
Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz
A letra que eu sei que você escreveu com lágrimas
Te amo porque nunca nos vimos
E me impressiono com o estupendo conhecimento
Que temos um do outro
Carlos, me escuta
Você que dizem ter morrido
Me ressuscitou ontem à tarde
A mim a quem chamam viva
Meu coração volta a ser uma remington disposta
Aprendi outra vez com você
A ouvir o barulho das montanhas
A perceber o silêncio dos carros
Ontem decorei um poema seu
Em cinco minutos
Agora dorme, Carlos.


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

AS MENINAS

Ainda em 2004, Paulo Moraes me convidou para fazer assistência de Direção para a peça “As Meninas”, romance de Lygia Fagundes Telles. 
Antes de relatar sobre essa experiência é preciso falar um pouco sobre Paulo. Essa “figuraça” entrou na minha vida no ano anterior, quando foi júri na fase municipal do Mapa Cultural Paulista e nos tornamos amigos unidos pela arte...
Ele e Dinei vindos de São Paulo, escolheram São Roque para viver, não tranquilamente, mas sim com um propósito firme de interferir na vida cultural da cidade e, conseguiram, por tantas e tantas coisas que só cabe aqui relatar a parte que me toca.
Com relação ao teatro, Humberto Gomes tinha deixado a cidade com destino à Curitiba para voar mais alto e tinha deixado como saldo um vazio e, vários órfãos dessa arte. O grande pai Moraes, foi lá e adotou três meninas: Janaina Giorni, Luciana Galvão e Natália Negro (Dani Oncala também seria adotada, mas a Universidade Estadual de Londrina comprou o passe de Dani).
O Abraçando Quixote devia estar de ressaca nessa época, então Paulo convidou-nos: eu, Anderson e Lud (que já era mãe a essa altura) para integrar esse grupo que não chegou nem a ter um nome, tal o samba do crioulo doido que se criou (Paulo sabe mexer um caldeirão como poucos...).
Ocupamos as dependências do São Roque Clube para ensaios, e eram ótimos. Fui testemunha de tanta coisa bonita e forte, que Paulo como psicodramaticista, arrancava do elenco com tal força que seria lindo, caso tivesse ido para os palcos...
São tantas as lembranças, mas só quero destacar uma, em agradecimento ao Paulo Moraes...
Numa certa tarde desse ano, recebemos a visita num dos ensaios de Adélia Nicoletti, adaptadora da obra de Lygia para teatro e seu marido, que não era (e continua sendo) nada mais nada menos que Luis Alberto de Abreu. 
Alguém sabe quem é? Eu também não sabia...
Um dos maiores dramaturgos brasileiros da atualidade...
Há de chegar o dia em que terei o gosto bem gostado de encenar um texto dele e deixar meu amigo Paulo ainda mais feliz por isso...


 "Ana Clara, não envesga", disse Irmã Clotilde na hora de bater a foto. "Enfia a blusa na calça, Lia, depressa. E não faça careta, Lorena, você esta fazendo careta!"  A pirâmide.
As meninas 

QUIXOTE CONTA A PLURALIDADE

Devidamente premiados (muitos risos), fomos convidados a fazer a abertura do ano letivo para os professores da rede municipal de ensino de São Roque e alcançamos em fevereiro de 2004 nosso maior público: cerca de mil pessoas com uma peça direcionada para a Educação.
A aproximação no ano anterior com Humberto Gomes, que desenvolvia um excelente trabalho em teatro na Divisão de Cultura, proporcionou um encontro feliz no palco entre dois atores fabulosos (ele e Anderson) com Luciana Galvão, uma querida, em quem tenho vontade de dar uns tapas por ter deixado de fazer teatro. Janaina Giorni, outra garota da trupe do Humberto se encarregou da operação de som e luz.
Coube a mim coordenar o projeto, reunindo textos de ótimos escritores nacionais para tratar de preconceito, diversidade cultural brasileira, assim como aspectos da cultura são-roquense. Novidade nessa encenação foi o uso de um telão, reproduzindo algumas imagens que dialogavam com a cena no palco.
Foi uma apresentação inesquecível, com muitos aplausos em cena aberta...
E por falar em aplausos, me bateu uma curiosidade e numa pesquisa rápida pelo Google, compartilho o que considerei interessante...
Qual é a origem do aplauso?

O ato de bater as palmas das mãos em sinal de aprovação tem origem desconhecida, mas existe há pelo menos 3 000 anos. Nessa época, o gesto era essencialmente religioso popularizado em rituais pagãos de diversos povos como um barulho destinado a chamar a atenção dos deuses. No teatro clássico grego, tornou-se, então, a forma pela qual os artistas pediam à platéia que invocasse os espíritos protetores das artes. O costume chegou ao Império Romano, onde passou a ser comum nos discursos políticos. Preocupado com a repercussão de suas aparições públicas, o imperador Nero carregava uma claque com mais de 5 000 soldados e cavaleiros. Dali, o costume espalhou-se para o resto do mundo. Nos séculos XVIII e XIX, quase todos os teatros de Paris contratavam pessoas que tinham uma única função na platéia: aplaudir. O truque continua utilizado até hoje pelas emissoras de TV, especialmente em programas de auditório. (mundoestranho.abril.com.br)

Desconfio que espantamos os espíritos protetores das artes a cada vez que aplaudimos algo sem qualidade...  

Foto escaneada de jornal, não tenho outra...